27 de setembro de 2011

Momentos cor de rosa



Eu tenho me comportado como uma jovem noiva apaixonada às vezes, à tardinha, me sento na varanda  e escrevo cartas, que logo são escondidas cuidadosamente no fundo da última gaveta do móvel do canto do meu quarto. Depois fico olhando pra rua e sentindo saudades de tudo. Em especial de uma amiga que está longe, de mim, que me fui junto aos pedaços e desmontável. Sinto falta de ar também, tudo tem me faltado e no momento que tudo me é devolvido eu fico assim, entorpecida e maravilhada e se choro, então, é do riso que meu coração transborda.
Tenho gastado minhas emoções, mesmo as que eu não tenho e devo, tudo em larga profusão. Quando começo a rir é tudo num crescendo que dá a impressão de um início de loucura, quando falo, faço isso com desesperada pressa, tudo me vem sem continuidade e abstrato, até o cansaço e a mudez.
O choro é completamente incontrolável, as lágrimas então, já não bastam.
Tudo em mim tem sido profuso, intenso, desvairado e louco, sem termos de coerência, sem meio ou razão ou fim. Tudo é feito de transbordamentos e é tudo com uma paixão alucinada e feérica. Tenho querido e amado a tudo e a todos e sempre mais. Tudo é extremamente definitivo e a cada momento me deparo com o impasse da minha vida, tenho tido surpresas a cada janela que eu abro, tudo se anuncia novo e recém-nascido e tem momentos em que até a poeira transparente, que passa despercebida, me vale a pena e logo em seguida, tudo fica velho e gasto e eu tenho respostas antigas, que me trazem um leve sorriso.
Sinto saudade. Acima de tudo. Sinto.
Não estranhem, que de repente eu fico assim escrevendo como se estivesse falando ou falando como se estivesse escrevendo. Mas não é honesto deixar isso escondido no fundo da última gaveta do móvel do canto do meu quarto e se é patético, que os raios me partam e que eu morra patética.

21 de setembro de 2011

Exorbitância


Há um espaço vago 
um descompasso
de alegria que se espalha
Toda emoção contida 
tem seu momento de desaguar.

Há vários timbres colorindo o espaço
e na magia que se espalha, traço 
todo o compasso desses passos

ValériaSorohan

12 de setembro de 2011

Suficiente



para todos                   suficiente
   suficiente                      para todos
para alguém                suficiente
    suficiente                    para alguém
 para quem?                 suficiente
     suficiente                      para quem?
 
 suficiente
   para mim

9 de setembro de 2011

Do fundo do meu estômago


Uma vez comi um ravioli que foi a coisa mais incrível da minha vida. Depois disso meu paladar nunca mais foi feliz.Um dia você experimenta uma comida gostosa e, depois, passa o resto da existência tentando reproduzir a experiência gastrônomica. E nunca consegue, e com o meu ravioli mágico ideal foi assim. Tudo começou quando...
Eu aguardava o lançamento de um livro. A coisa foi demorando e, claro, tinhamos ido pra lá sem almoçar. Quando terminei o que tinha de fazer por lá, resolvemos, eu e um grupo de amigos, almoçar.
Por causa do horário inadequado o restaurante era todo nosso. Pedi um ravioli. Acho que se alguém me oferecesse um pão com água, eu ia achar uma delícia. Naquela situação, poderia comer qualquer coisa. Mas o ravioli - justiça seja feita - estava gostoso. Muito gostoso. Incrivelmente gostoso. Minhas papilas gustativas tinham orgasmos múltiplos. Estavamos felizes e, por isso, tudo ficava ainda mais saboroso. Começava aí o meu Caminho de Santiago do ravioli mágico ideal. Porque nunca mais consegui comer um ravioli como aquele.
Muitas vezes tentei ir ao restaurante repetir o almoço. Só que sair para almoçar num final de semana em São Paulo é quase uma guerra. Como o grande programa da cidade é o bendito almoço, as filas são clássicas. E uma das coisas que mais odeio é ficar na fila de espera de restaurante. Ou seja, o mito do ravioli foi crescendo. Se tornando um monstro. O ravioli, na minha cabeça cheia de imaginação, foi ficando ainda mais gostoso.
Só me resta seguir, sabendo que tudo na vida é uma idealização. Inclusive nosso amores. Mesmo que você tenha se apaixonado por...
um ravioli.

7 de setembro de 2011

Fora da gaveta


É tempo de pedra
O muro cerca
A ave voa
O poema pede
voa
voa

ValériaSorohan