São Paulo está cheia de referências que nos obrigam a pensar em tudo, porque ela é tudo, tem tudo e abriga todos.
O velho de chapéu, por exemplo ( ou não será um velho?) que sobe as escadas ao lado do viaduto viu os grafites nas paredes? Pensou o que desses símbolos herméticos? Grafites são uma linguagem cifrada ou não passam de brincadeiras para provocar?
O avião vem ou vai? Quem traz, quem leva? O que vieram fazer os que chegam, por que se vão os que partem?
Com que sonha a japonesinha no ponto de ônibus? com o namorado ou a lição de casa?
O homem de terno preto na calçada, deseja o carro conversível ou o automóvel é dele?
Aqueles sapatos jogados no chão, foram abandonados porque se acabaram ou foram arrancados e ali atirados? Teriam saído de um corpo sendo arrastado. Há uma história de violência ou apenas o cansaço de coisas muito usadas que se tornaram inúteis?
A mulher no farol, vende flores ou leva para alguém? Foi busca-las para enfeitar a casa?
Na Oca, no Parque Ibirapuera, a moça passou indiferente pelo quadro de Picasso ou já o contemplou e vai em frente? Gostou ou ficou perplexa? Uma informação a mais, uma sensação de delírio?
Essas linhas retas, luminosas, curvas formadas pelo trânsito, são instalações vanguardistas da Bienal, quadros abstratos, esboços, rascunhos, tentativas?
Junto à vitrine de neon da boate que promete prazeres, a garota de programa (ou é travesti?) aproveita para dizer que também será prazer por minutos, horas, depende de quanto se pague. Que prazeres ela (ele) oferece? E se essa noite for a última para um dos dois, numa cidade cheia de imprevistos?
Nessa longa - e não terminada - viagem por São Paulo através de imagens, tirei o véu que cobre o inusitado, valorizando os personagens mais comuns quase nunca reparados, detalhes ínfimos pelos quais experimento a minha cegueira mais evidente, como diria Saramago, ou, para ser menos ibérica, na metáfrase a Mautner, " Atrás do arranha-céu tem o céu, tem o céu..." um perpétuo descortinar que está cidade nos oferece como presente.