28 de fevereiro de 2011

O dia que Júpiter encontrou Saturno


"- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu."

Trecho do conto "O dia que Júpiter encontrou Saturno" do livro Morangos Mofados
(Caio Fernando Abreu)

Meus amigos legais e fieis - os livros. Me entendem perfeitamente, até quando não querem entender, eles acabam entendendo. E me dizendo. E quando ando em busca da minha inspiração perdida, são eles minha última esperança.

25 de fevereiro de 2011

Perdurável

"Banhista" - Berthe Morisot

É sussurro
cada verso que tu gritas.
É silêncio
todo som que reverberas.
É seu nome
onde sempre eu gravito.
Nessas horas
grávidas de esperas.

ValériaSorohan

22 de fevereiro de 2011

Com gosto de mar


Se desaponto, 
eu pingo,
evaporo bem levinho.
Viro chuva em desalinho.
Nuvem rompe outra,
pinga brisa que lá ia.
Gota nova à maresia.

ValériaSorohan

21 de fevereiro de 2011

Comemoração especial


Este blog está fazendo dois anos de existência. Aconteceu tantas coisas boas de lá pra cá. Já mudou de nome (acredito que alguns lembram do antigo "Morangos Mofados"), já mudou de endereço, já mudou até de aparência algumas vezes.
Quero registrar o fato e agradecer a todos que me visitam e principalmente aos que comentam, numa demonstração de carinho e apreço pelo que faço ou tento fazer na medida do possível. E espero que continue assim. Gostaria, lógico, que todos comentassem. Mas, a simples presença também tem o seu valor.
Não sei, contudo, quanto tempo ainda permanecerei por aqui. Às vezes tenho vontade de largar tudo, porém invade uma tristeza em deixá-los. Então volto ao ponto inicial.
Perdi alguns elos, pessoas que desistiram de suas páginas. E outras, entretanto, que deixaram de comentar ou aparecer, não sei a razão. Mas, a vida é assim mesmo, existe o encontro, depois o desencontro e posteriormente, quem sabe, um reencontro. No entanto, sou muito grata a todos.

18 de fevereiro de 2011

Ortografia do olhar


"Mulheres de Taiti na praia" de Eugène-Henri-Paul Gauguin (1848 - 1903), pintor francês do pós-impressionismo.

O que pinta o poeta 
quando, de cor e pincel se investe? 
O que escreve o pintor
quando, tela e paleta esquece?
E tomando de pena e tinta 
um verso escreve.
Escreve o que pinta 
ou pinta o que escreve?

ValériaSorohan

15 de fevereiro de 2011

Epiceno



Não me avisto
a desviar de suas roupas,
mas se o meu sonho
te despe,
retiro destra
a tua pele,
calculando somas
sem prova dos nove
ou real de todos
os seus códigos secretos.

ValériaSorohan

11 de fevereiro de 2011

Tempo de ebulição


Apaixonar-se é atrever,
violar a resistência,
é pressa, 
é impaciência 
de querer 
ter e não ter.
Sou eu dizendo à você 
que a paixão
 — pura latência —
respira coincidência:
hora H no ponto G.

ValériaSorohan

8 de fevereiro de 2011

Igual diário


Não. Eu não sei o que fazer, apesar de ser de tarde, uma tarde como qualquer outra segunda-feira. Sou eu. É comigo que as segundas-feiras não fazem sentido ou sexta, o domingo e até a quinta-feira que me fazia intensa por um motivo que eu nunca compreendi e nem tentei.
Eu quero muito que o telefone toque, que seja alguém que eu, a princípio, não saiba quem é, ou que venha me visitar uma grande novidade. É preciso que eu ria sem saber por quê. O tédio é letal e a morosidade desse igual diário, me rouba o ar e eu quero, de repente, que haja motivos para sair nas ruas, é extremamente necessário que me tragam um assunto inusitado, ainda que ele seja roubado de outras estâncias e habilmente adaptado para essas regiões daqui.
É fatalmente urgente que alguma coisa chegue a mim sem o cheiro repetido que carrego nos meus trinta e poucos anos enfraquecidos de todos meus aniversários quebrados.
É fundamental que eu comemore uma fundação ou um lançamento, mas que seja vermelho e não branco, que o branco me enjoa, de já tão comemorado.
É inadiável que me tragam um gosto novo, um dialeto novo, até mesmo um cansaço que eu não conheça, uma dor que eu não tenha sentido.
É preciso, é vital que me tragam a ascensão ou a queda, ou até mesmo, a proposta de tudo isto. Mas que por favor, não arrastem na língua esse ranço insuportável do digerido, vivido, sentido, provado e reprovado.

ValériaSorohan

4 de fevereiro de 2011

Etílico


Na taça vinho branco
o teu sabor me diz tinto. 
O aroma embriaga o flanco.
Não ouço você — só sinto.

ValériaSorohan


Acarinhada pelo blog

1 de fevereiro de 2011

Plural


Dois, outra vez, dois bem-feitos.
Dois vivendo, dois amando, dois levando um pouco mais adiante desse solo que se esqueceu inútil. Mudando e mutantes, deixando o avesso de tudo que somos nos incomodar e conduzir.
Dois, outra vez, dois chegando bem dentro, onde não chega nada.
Queremos assim, como se a primeira vez fosse eternamente nossa. Acreditamos de fato, que antes nada aconteceu, posto que sobrevivendo, restamos nós, assim exatamente como fomos criados. à imagem e perfeição. Chegamos então à metamorfose inexata do pelo pela pele e eleitos, geramos todos os restos de vida, que depositados nesse apelo, se renascem e se procriam suplicantes.

ValériaSorohan




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