29 de julho de 2010

Meu porto

"Casa de Mateus" - Marta Jacinto


Resta-me
o silêncio
 do templo
que é
o teu corpo,
de que fiz
 o meu Porto.
Ancorada
ficarei.


ValériaSorohan

26 de julho de 2010

Duas aspirinas e nada

Lungi Mirante

Do monte de festas e danças sem fim, de vodkas e vinhos sem fim, de qualquer fim sem fim. Me sinto enjoada. Pára de pensar, pára de sentir. Pára, meu coração. Pára, minha cabeça danada.
Estou cansada de tanto não dormir, sou tudo quase, e nada.
A vida se mostra, o resto se guarda, como um acontecimento. Como uma surpresa. Me guarda.
Estou cansada...alguns afazeres e a minha vida se acaba.
É doloroso doer mais do que está dúvida teatral...Ser ou não, importância nenhuma tem. 
Pára, minha cabeça danada.


Recebi outro selinho,
este, do blog Dias genérico.
“Prêmio Muchas Gracias Al Blog Amigable”

23 de julho de 2010

Rascunho

"Undiscovered Self" - Jerry Uelsmann

As palavras nuas
posam para mim.
Que pinto meu quadro-poema.
Que desnudo meus pensamentos
através dos versos livres.
Vejo a beleza das palavras,
escorrendo não dos dedos
mas da alma.
Não há régua ou compasso
para esses traços,
inventados e reinventados,
feitos e refeitos por mim.

ValériaSorohan 




Mais um selinho,
agora do blog Os Meus Ensaios



21 de julho de 2010

Abutres sorridentes

Desconheço o autor da imagem


Deuses foram criados, valores foram destruídos, 
símbolos perfeitos foram inventados e depois mastigados.
Crenças foram descobertas, as decepções tornaram-se maiores,
totais e nem uma lágrima foi chorada.
Crianças aprenderam rápido, desfizeram sonhos, 
bolinaram convenções, destruiram altares, 
as luzes foram apagadas e o homem não reagiu.
Supostas verdades foram desmentidas.
Poderes foram depostos, gritos subiram às bocas
e por isto elas foram amordaçadas e ainda assim,
mais uma vez, nada se fez.

ValériaSorohan

18 de julho de 2010

Apocalíptica

"The starry night " - Van Gogh

Estórias foram contadas, escritas e relidas.
As mesmas palavras velhas e toscas foram usadas,
mentiras foram ditas e acreditaram nelas.
A verdade, preferiram não ouvir e ninguém optou por elas.
Rostos pálidos transpareceram angústias,
gritaram desespero e nada foi dito e nada se fez.
Olhos exaustos e tristes molharam a terra seca e dura
e os frutos não nasceram.
Vozes autorizadas foram caladas,
vozes proibidas não ousaram,
olhos cientes foram cerrados,
a poesia assustada fugiu para terras bem longe.
Noites baixaram seu véu negro e cintilante,
a visão restrita foi adotada
e não mais amanheceu.
 
ValériaSorohan

15 de julho de 2010

Teatro do absurdo

"Violin and Guitar" - Juan Gris

No teatro do absurdo
o contra-regra toma o ponto,
alça o pão, que o diabo amassou.
Dá a dica,
ensina a cola,
acena a sina,
o salto,
a poesia de assalto.
Cochicha,
o rabo espicha.
E de ventre livre
caga pro mundo certinho.
Inspira,
nos expira,
nos pira.

ValériaSorohan

14 de julho de 2010

Os meses que virão

Pino Daeni


E quando nem todo barulho é suficiente para calar um sentimento que grita dentro de você? Tudo que eu queria era ficar em silêncio. Quero eu agora (agora mesmo) ouvir o silêncio das ondas quebrando.
Eu quero um “licor de boas lembranças”. Um chá de sumiço, talvez resolveria.
Chá de esquecimento? Só se for dos pacotinhos de “chá de esquecimento conveniente…” esses são bons. Dizem que consiciência tranquila é o mesmo que memória fraca…Quase nunca somos a mesma coisa. Assim estamos. Vou ficar com o contato úmido das minhas lágrimas no travesseiro.

12 de julho de 2010

Com viés

“The River, Bennecourt” – Claude Monet

Na sua viagem de volta, te espero.
Numa manhã agradável e linda, com o nascer do sol, te espero.
Não desejo que suas lembranças se apaguem, espero pacientemente um sorriso, não espero recompensas.
A distância às vezes é necessária para sabermos do que mais sentimos falta.
Desejo que o tudo tenha o valor do nada e o nada tenha valor do tudo. Mesmo que a visita seja como o vento: entrando pela janela e saindo pela porta em um segundo breve.

9 de julho de 2010

Vontades escritas

"Leitura" Renoir


Mais sensações brotam.
Mais vontades nascem.
É perfeito beijo.
É puro desejo que,
liquefeito em cada palavra
escorrida da boca,
transborda a vontade
de ter você
em minhas linhas.

ValériaSorohan

8 de julho de 2010

Derradeira


Penso em uma última cena
para me despedir das surpresas
e esquecer de todos os males da vida.
Faria por ti uma última canção,
um último poema.
Acorrentaria em mim a essência de um último abraço.
O tempo urge e a minha passada é rápida.

ValériaSorohan

5 de julho de 2010

Anjos lindos

"Anjo Caído" - Vitor Melo


Sabes torto esse anjo?
Como o anjo torto de Drummond?
Sedutor e dono de asas quebradas?
Sou orientada por um desses anjos,
talvez daí venha o meu cabelo desgrenhado
e as asas emprestadas.
Mas sequer asas eu tenha,
sei também, como o poeta,
serem tortos os anjos lindos.

ValériaSorohan

2 de julho de 2010

Esboço de ilusões

"A Carícia Perdida" - Alba Luna

Havia cores pintadas em cada mentira que, cuidadosamente, colaram em meus olhos mornos, melancolicamente esperando. Havia ainda tudo para sentir e meu coração demaquiado, pegava cada pétala do outro instante, esperava orvalho, lágrima...Tudo podia ser, tudo era.
Os passarinhos pousavam na friagem da árvore nua, despertavam o sono e dormitavam. Havia deuses de todos os sexos, desmemoriados de nomes. Eram mudos inquiridores cheirando a vinho e a distância. Guardavam nas pedras os preciosos manuscritos intraduzíveis, despojados de letras e orações. Não se dividia mais, nem sentido, nem aprendido. Desamparo era a única certeza que ficava sempre.
Tudo estava proibido, arrancado, devorado e os mapas todos incendiados. O verso de tão rebuscado beliscavam as moças da rua.
Tudo era pleno e claro. Dos gritos e gemidos não se podia mais ouvir a voz. Não mais o canto, não mais a dança.
Era de tarde, ainda que fosse moda anoitecer. A porta estava aberta, como estaria o resto do sempre. Bateram e foram embora sem entrar. Sustentei o ar ainda por um pouco e desacordei.

ValériaSorohan

(A imagem foi a inspiração)