1 de dezembro de 2009

Conto proparoxítono

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.
Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula: ele não perdeu o ritmo e sugeriu um longo ditongo oral, e quem sabe, talvez, uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta dela inteira. Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular (...)
Agora, quem coloca ponto final sou eu. Ou melhor: coloco dois. Um, é para não perder a mania. Outro, é porque isso é um conto rápido, e não uma oração adjetiva explicativa.

(Redação feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.)

14 Mil comentários:

Geraldo de Barros disse...

Valéria, que texto fantástico!

Adorei!

Beijos,
Geraldo.

ROSANA VENTURA disse...

Isto foi antes ou depois da nova regra ortográfica?
Menina, pois eu cá, estou ficando maluca de tentar entender a tal nova regra...!!
Muito bacana o texto!
Muito bacana teu Blog!
Amei!

Rosemildo Sales Furtado disse...

Oi Valéria! Belo conto, muito inteligente. Adorei! Só que, na hora em que o substantivo estava todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular, não falou da contração sentida pelo artigo, como também, dos derivados. Rs,rs.

Beijos,

Furtado.

lis disse...

Oi,Valéria
Poxa , que bom de ler isso! pra mim poderia ser oxítono, paroxítono, qualquer número de sílabas porque está genial.Muito inteligente e criativo.
Gostei muito,Valéria.
abraços

Pleiba disse...

Ola amiga! blz?!
nossa fantastico
bjuz

Lindsae disse...

Quando eu li esta redação, fiquei doida tentando fazer uma história metalinguística, mas claro, não dei conta...
Genial esse texto!

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Valéria, recebí um e-mail hoje com (quase) esse texto que você postou e postei também. Interessante que conforme as coisas vão rodando na internet, alguns detalhes vão se modificando, hehehe! Por isso não dá para confiar nos terráqueos. (Vide postagem do cotidiano). Beijos coincidentes. Manoel.

Valéria Sorohan disse...

Manoel, os detalhes não se modificaram, eu apenas encurtei o texto.(...)

Abraços.

Valéria Sorohan disse...

Geraldo

Que bom que gostou, o texto é realmente fantástico.

Valéria Sorohan disse...

Rosana

O texto acho que foi escrito bem antes da tal regra ortográfica, eu também ainda me perco nela.

BeijooO

Valéria Sorohan disse...

Rosemildo

Haha, gostei da criatividade!

BeijooO

Valéria Sorohan disse...

Lis

Em oxítono, paróxitono, em qualquer tempo, vira um ditongo singular..rs

Valéria Sorohan disse...

Dead Lindsae

Eu também tentei fazer o mesmo, mas foi difícil..rs

Valéria Sorohan disse...

Pleiba

Faz tempo que não comenta qui amigo, gostei disso!

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